Quem tem um terreno bem localizado no Norte de Santa Catarina cedo ou tarde recebe a proposta: em vez de dinheiro, unidades do empreendimento que será construído ali. É a permuta, e ela é a forma dominante de negociar terra para incorporação no Brasil. Também é onde a maioria dos proprietários negocia mal, por não conhecer a lógica que está do outro lado da mesa.
O que é permuta, sem juridiquês
Permuta é troca. Você entrega a terra e recebe, no lugar de dinheiro, uma parte do que será construído sobre ela. A incorporadora entra com projeto, aprovação, obra, capital e venda; você entra com o ativo que torna tudo possível.
A razão de esse formato ser tão comum é simples: terreno bom é caro, e desembolsar o valor cheio antes de vender a primeira unidade travaria o caixa de qualquer incorporadora. A permuta resolve isso ao transformar o pagamento da terra em participação no resultado.
Para você, isso tem uma consequência que muda tudo: você deixa de ser apenas vendedor e passa a participar do empreendimento. Quando ele vender bem, a sua parte vale mais do que o dinheiro que você receberia hoje pela terra. É a diferença entre se despedir do seu patrimônio no dia da assinatura, entregando a outro toda a valorização que ele ainda tinha pela frente, e permanecer dentro dessa valorização até o fim.
Permuta física e permuta financeira
Existem dois formatos, e a diferença entre eles define de que maneira você recebe.
Permuta física é a troca por unidades. Você recebe apartamentos, lotes ou salas, e decide se vende, aluga ou fica com eles. Seu resultado depende do valor de mercado daquelas unidades no momento em que quiser realizá-las.
Permuta financeira é a troca por um percentual da receita de vendas. Você não recebe imóvel, recebe dinheiro conforme o empreendimento vende. A vantagem costuma estar na correção: os valores a receber são normalmente atualizados por índice e juros até a quitação, o que em prazos de obra pode representar um ganho expressivo sobre o valor original da terra. É um formato que dispensa a preocupação de administrar ou revender unidades depois.
Há ainda a permuta com torna, em que parte é paga em dinheiro e o restante em unidades. Vale conhecer, mas é a modalidade mais rara das três: depende de o terreno ter potencial acima da média e de a incorporadora ter caixa disponível naquele momento. Quando aparece, costuma ser resultado de uma negociação bem construída, não de um pedido feito na primeira conversa.
Antes de decidir qual formato aceitar, vale saber o que a sua área realmente comporta. A O Terreno faz o estudo de viabilidade construtiva, financeira e vocacional sem custo e sem exclusividade.
Avaliar meu terreno ›O que define a sua parte
Esta é a pergunta que todo proprietário faz primeiro, e é também onde mais se escreve bobagem na internet. Você vai encontrar artigos afirmando percentuais como se fossem tabela. Não são.
A participação do proprietário não é costume de mercado nem número decidido no olho. Ela é resultado de uma conta: quanto o seu terreno representa dentro do valor total que o empreendimento vai gerar. Essa conta muda de bairro para bairro, e muda também conforme o tipo de projeto.
Empreendimento horizontal, como loteamento, trabalha numa lógica completamente diferente do vertical. No horizontal, a terra é praticamente o produto final, e a participação do proprietário reflete esse peso. No vertical, o terreno é o ponto de partida para algo que vale muitas vezes mais do que ele, e a participação acompanha essa outra proporção. Comparar os dois é comparar negócios distintos.
Dentro do próprio vertical a variação é grande. Um terreno frente-mar em Balneário Camboriú e outro a dez quadras dele, com a mesma metragem, resultam em participações bem diferentes, porque nem o que se pode construir nem o preço de venda por metro quadrado são os mesmos.
O que empurra a sua participação para cima
- Potencial construtivo. Quantos metros o Plano Diretor permite erguer ali. É o fator mais decisivo, e o mais ignorado por quem negocia sozinho.
- Preço de venda da região. Quanto vale o metro quadrado pronto naquele endereço.
- Velocidade de absorção. Bairro que vende rápido reduz o custo financeiro da obra, e isso sobra para a negociação.
- Situação documental limpa. Matrícula sem pendência, sem inventário aberto e sem passivo ambiental vale mais, porque elimina risco e tempo.
- Topografia e formato do terreno. Área plana e regular reduz custo de fundação e desperdício de projeto.
O que puxa para baixo
- Pedida de preço sem base técnica. É o que mais derruba negociação. Um valor tirado do que o vizinho falou, ou do que o terreno "deveria valer", afasta o incorporador logo na primeira conversa. O preço precisa vir do que se pode construir ali, não da expectativa.
- Exigir a venda apenas em dinheiro. Fecha a porta para a maior parte do mercado. Pouquíssimas incorporadoras imobilizam capital em terra antes de vender a primeira unidade, e insistir nisso costuma inviabilizar o negócio antes mesmo da análise.
- Produto errado para o endereço. Vocação mal definida faz o empreendimento vender devagar, e o terreno é precificado por baixo para compensar esse risco.
- Incorporadora sem capacidade de execução. Empresa sem histórico ou sem estrutura financeira não consegue extrair o melhor do terreno, e a proposta reflete isso.
- Zoneamento restritivo ou recuos que inviabilizam o melhor aproveitamento
- Necessidade de demolição, remoção de ocupação ou contenção de encosta
- Documentação irregular, litígio entre herdeiros, usufruto não resolvido
- Mercado local já saturado com o mesmo produto
Repare que quatro dos cinco fatores que aumentam a sua participação podem ser demonstrados antes da negociação. É isso que um estudo de viabilidade faz: transforma a impressão de que o terreno é bom em um documento que sustenta o número que você está pedindo.
Por que a incorporadora resiste a pagar entrada
É o ponto que mais trava conversa. O proprietário pede um valor em dinheiro na assinatura, a incorporadora recua, e a negociação esfria.
Não é má vontade. O modelo inteiro da incorporação se sustenta em não imobilizar capital antes de vender. Dinheiro na assinatura sai do caixa da empresa antes de qualquer receita existir, e concorre com o que ela precisa para aprovar projeto e iniciar obra.
Isso não significa que não exista saída. Significa que a entrada precisa ser justificada por algo: um terreno com potencial acima da média, documentação impecável, ou disposição sua de aceitar uma participação menor em troca da liquidez. Toda torna em dinheiro é comprada com alguma concessão em outro ponto da mesa. Saber qual concessão você está fazendo é a diferença entre negociar e ser negociado.
Você pode escolher quais unidades recebe
Poucos proprietários sabem disso, e é um dos pontos onde mais se perde valor sem perceber.
Numa permuta física não se negocia apenas quantas unidades você recebe, mas quais. Andar, posição solar, vista, metragem e tipologia mudam bastante o valor de revenda. Receber a mesma quantidade de unidades no segundo andar dos fundos ou em andares altos com vista para o mar são resultados financeiros muito distintos.
Esse detalhe é definido em cláusula, e com frequência fica em aberto justamente porque o proprietário não pensou nele a tempo.
O que precisa estar no contrato
A permuta entrega a sua terra hoje em troca de algo que só existirá daqui a anos. O contrato é o que sustenta essa distância, e alguns pontos não deveriam ficar de fora:
- Prazo com consequência. Data de entrega vale pouco sem penalidade definida para o atraso.
- Cláusula resolutiva. Define em que condições o terreno volta a ser seu caso o empreendimento não saia do papel. É a proteção mais importante do contrato.
- Percentual, e não quantidade fixa de unidades. Definida como percentual do empreendimento, a sua parte acompanha o projeto que for efetivamente aprovado. Se um estudo mais apurado destravar área construída acima do previsto, você participa desse ganho. Com número fechado de unidades, todo aproveitamento a mais fica com a incorporadora.
- Critério de escolha das unidades. O percentual define o quanto; este ponto define quais. Deixe acordado desde o início como serão escolhidos andar, posição e tipologia quando o projeto for aprovado, em vez de descobrir depois que sobrou para você o que ninguém quis.
- Condições de aprovação. O que acontece se o projeto não for aprovado como previsto.
Esses pontos são jurídicos e pedem advogado com experiência em incorporação. O objetivo aqui não é substituir essa análise, e sim garantir que você saiba o que perguntar.
O que fazer antes de aceitar qualquer proposta
Uma proposta de permuta só pode ser avaliada se você souber três coisas sobre a sua área: o que pode ser construído ali, quanto isso gera de receita e qual produto o mercado daquele endereço absorve.
Sem esses três números, qualquer percentual oferecido parece razoável, porque não há com o que comparar. Com eles, a conversa muda de lugar: você deixa de reagir a uma proposta e passa a discutir premissas.
É por isso que fazemos esse estudo antes de apresentar qualquer área ao mercado, e por isso ele é gratuito. Proprietário que entende o próprio patrimônio negocia melhor, e negociação boa é o que sustenta o nosso trabalho.